Os remédios mais usados para TDAH, como o metilfenidato e a lisdexanfetamina, costumam reduzir o apetite, e uma parte das pessoas perde peso com eles. Isso não faz deles remédios para emagrecer: a bula do Venvanse aprovada nos Estados Unidos diz que ele não é indicado nem recomendado para perda de peso, e a perda, quando aparece, é tratada como efeito adverso a acompanhar.
A pergunta tem um segundo lado, menos conhecido. O TDAH em si está associado a mais obesidade, e um estudo grande encontrou ganho de peso mais rápido no fim da adolescência entre jovens que tinham usado estimulante na infância. Abaixo estão os números das bulas, o que os estudos de longo prazo mediram e o que o acompanhamento médico costuma observar.
Por que o remédio de TDAH costuma tirar a fome
Os estimulantes usados no TDAH aumentam a ação da dopamina e da noradrenalina no cérebro. São sistemas que também participam do controle da fome e da saciedade, o que ajuda a explicar por que a redução do apetite está entre os efeitos colaterais mais relatados dessa classe.
O efeito acompanha o período em que o remédio está agindo. Por isso a diretriz NG87 do NICE, órgão que orienta o sistema público de saúde do Reino Unido, lista entre as estratégias para quem perde peso fazer refeições ou lanches extras cedo pela manhã ou mais tarde da noite, e tomar o remédio junto ou depois da comida, em vez de antes.
Se você quer entender o mecanismo do metilfenidato em detalhe, vale ler como o metilfenidato age no cérebro com TDAH.
O que as bulas mostram: o apetite cai com frequência, o peso cai menos
As bulas americanas trazem a frequência de cada efeito colateral nos ensaios controlados, sempre comparada com o grupo que tomou placebo. Os números abaixo foram consultados no DailyMed, a base de bulas da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.
| Medicamento e população do estudo | Apetite diminuído (remédio x placebo) | Perda de peso relatada (remédio x placebo) |
|---|---|---|
| Metilfenidato de liberação prolongada, Concerta (adultos com TDAH) | 25% x 7% | 7% x 3% |
| Lisdexanfetamina, Venvanse (adultos com TDAH) | 27% x 2% | 3% x 0% |
| Lisdexanfetamina, Venvanse (crianças de 6 a 12 anos com TDAH) | 39% x 4% | 9% x 1% |
| Lisdexanfetamina, Venvanse (adultos com compulsão alimentar) | 8% x 2% | 4% x 0% |
| Atomoxetina, Strattera (adultos com TDAH) | 16% x 3% | 2% x 1% |
Três leituras ajudam a não tirar conclusão errada da tabela:
- Apetite menor não é o mesmo que emagrecer. Em todas as linhas, a perda de peso foi relatada bem menos vezes do que a falta de fome.
- As linhas vêm de estudos diferentes. Duração, dose e perfil de participantes mudam de um ensaio para outro, então a tabela não serve para dizer qual remédio “emagrece mais”.
- O placebo também aparece. Parte das queixas acontece mesmo sem o princípio ativo, e é por isso que a comparação importa.
A bula brasileira do Venvanse vai na mesma direção: classifica a redução do apetite como reação muito comum e a perda de peso como muito comum no tratamento do TDAH e comum no tratamento da compulsão alimentar.
A atomoxetina é o único remédio não estimulante da tabela. Ela chegou ao Brasil em 2023, com o nome comercial Atentah, segundo o Portal Afya. Na bula americana, a falta de apetite aparece com menos frequência do que nos estimulantes, e a perda de peso relatada ficou perto do placebo.
Por que não é remédio para emagrecer
A bula americana do Venvanse é direta: o medicamento não é indicado nem recomendado para perda de peso, e o uso de outros simpatomiméticos, a família de substâncias à qual ele pertence, para emagrecer já foi associado a eventos adversos cardiovasculares graves.
No Brasil, a bula do Venvanse traz duas indicações: TDAH a partir dos 6 anos e transtorno de compulsão alimentar em adultos. Compulsão alimentar é um diagnóstico psiquiátrico, com episódios recorrentes de comer em grande quantidade com sensação de perda de controle. Não é sinônimo de sobrepeso nem de obesidade, e o objetivo do tratamento é a compulsão, não o número na balança.
Metilfenidato e lisdexanfetamina são substâncias controladas, vendidas com receita amarela. A própria diretriz NG87 pede cautela ao prescrever estimulantes quando existe risco de a substância ser desviada para suprimir o apetite. Usar o remédio de outra pessoa ou sem indicação expõe a riscos cardiovasculares, de sono e de dependência que só uma avaliação médica consegue pesar.
O TDAH sem tratamento está associado a mais obesidade
Uma metanálise publicada no American Journal of Psychiatry em 2016, conduzida por Samuele Cortese e colaboradores, reuniu 42 estudos com 728.136 pessoas, sendo 48.161 com TDAH. O resultado:
- Em adultos com TDAH, a prevalência de obesidade foi de 28,2%, contra 16,4% em adultos sem TDAH, um aumento de cerca de 70%.
- Em crianças com TDAH, foi de 10,3%, contra 7,4%, um aumento de cerca de 40%.
- A associação se manteve nos estudos que ajustaram para fatores de confusão, que fizeram diagnóstico por entrevista direta e que mediram peso e altura de verdade, em vez de usar o valor informado pelo participante.
- Pessoas medicadas para TDAH não apresentaram risco maior de obesidade.
Os autores partem da hipótese de que impulsividade e desatenção podem aumentar a ingestão de comida: comer sem planejar, beliscar por tédio, perder o sinal de saciedade. A metanálise mostra associação, não prova causa, e eles próprios pedem pesquisa sobre os mecanismos. Para o lado da alimentação, o site tem um texto sobre o que a pesquisa diz sobre dieta e foco no TDAH.
Na adolescência, o peso pode subir mais rápido depois do remédio
Um estudo publicado na revista Pediatrics em 2014, liderado por Brian Schwartz, da Universidade Johns Hopkins, acompanhou registros eletrônicos de saúde de 163.820 crianças e adolescentes de 3 a 18 anos no sistema de saúde Geisinger, na Pensilvânia.
Os achados foram dois:
- TDAH sem estimulante esteve associado a índice de massa corporal (IMC) mais alto durante a infância, em comparação com crianças sem TDAH.
- TDAH tratado com estimulante esteve associado a crescimento mais lento do IMC no início, seguido de uma recuperação mais rápida no fim da adolescência, até níveis acima dos de jovens sem histórico de TDAH ou de estimulante. Quanto mais cedo começou e mais tempo durou o uso, mais marcado foi esse padrão.
É um estudo observacional: mostra o que aconteceu com quem usou, não prova que o remédio causou a subida posterior. O recado prático é que o peso de quem trata TDAH merece acompanhamento ao longo dos anos, e não só nos primeiros meses.
Em crianças, a atenção vai para o crescimento
Em crianças, a questão principal não é emagrecer, e sim crescer. As bulas americanas do Concerta e do Venvanse descrevem que crianças de 7 a 13 anos que usaram metilfenidato todos os dias por mais de 14 a mais de 36 meses tiveram desaceleração temporária do crescimento: em média, cerca de 2 cm a menos em altura e 2,7 kg a menos em peso ao longo de 3 anos.
O acompanhamento mais longo vem do estudo MTA, publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry em 2017. Ele seguiu até os 25 anos crianças diagnosticadas com TDAH entre 7 e 10 anos:
- O grupo com TDAH ficou, na vida adulta, 1,29 cm mais baixo que o grupo de comparação.
- Quem usou estimulante de forma consistente ou intermitente ficou 2,55 cm mais baixo do que quem teve uso desprezível.
Os subgrupos se formaram pela escolha das famílias ao longo dos anos, sem sorteio, então outros fatores podem ter influído. Mesmo assim, o dado explica por que a diretriz NG87 pede medir a altura a cada 6 meses em crianças e adolescentes em tratamento e anotar em curva de crescimento. Qualquer ajuste diante de uma curva que desacelera é decisão do médico que acompanha a criança.
O que o acompanhamento costuma olhar quando o peso muda
A diretriz NG87 do NICE define uma rotina de monitoramento para quem usa medicação para TDAH:
| Quem | O que medir | Com que frequência |
|---|---|---|
| Crianças de até 10 anos | Peso | A cada 3 meses |
| Crianças acima de 10 anos e adolescentes | Peso | Aos 3 e aos 6 meses do início, depois a cada 6 meses |
| Crianças e adolescentes | Altura | A cada 6 meses |
| Adultos | Peso | A cada 6 meses, e considerar o IMC se houver mudança de peso |
Quando a perda de peso preocupa, a mesma diretriz lista opções que o profissional pode considerar: tomar o remédio junto ou depois da refeição, fazer refeições ou lanches extras cedo pela manhã ou à noite, buscar orientação nutricional, preferir alimentos calóricos e de bom valor nutricional, uma pausa planejada no tratamento ou a troca de medicamento. As duas últimas são decisões clínicas. Não interrompa nem ajuste o remédio por conta própria.
Se o peso sobe durante o tratamento, a conversa com o médico também vale. Outros medicamentos em uso, sono, rotina alimentar e comorbidades entram na avaliação, e o guia sobre tratamento do TDAH mostra como medicação, terapia e rotina se combinam num plano único.
Perguntas frequentes
Remédio de TDAH emagrece?
Pode reduzir o apetite e, em parte das pessoas, levar a perda de peso, mas não é tratamento para emagrecer. Na bula americana do Concerta, a falta de apetite apareceu em 25% dos adultos, contra 7% no placebo, e a perda de peso em 7%, contra 3%. Na do Venvanse, em adultos com TDAH, foram 27% contra 2% para apetite e 3% contra 0% para peso. A perda de peso é acompanhada como efeito adverso.
Posso usar Venvanse para emagrecer?
Não. A bula americana afirma que o Venvanse não é indicado nem recomendado para perda de peso e lembra que outros simpatomiméticos usados para emagrecer foram associados a eventos cardiovasculares graves. No Brasil, as indicações em bula são TDAH a partir dos 6 anos e transtorno de compulsão alimentar em adultos, que é um diagnóstico psiquiátrico e não sinônimo de obesidade. O remédio é controlado e exige receita.
Remédio de TDAH engorda?
Os estimulantes e a atomoxetina não trazem ganho de peso entre os efeitos esperados das bulas: o que aparece é redução do apetite. Um estudo publicado na Pediatrics em 2014, com 163.820 crianças e adolescentes, encontrou ganho de IMC mais rápido no fim da adolescência entre quem usou estimulante na infância, geralmente depois de parar. Se o peso subir durante o tratamento, converse com o médico sobre as possíveis causas.
O remédio de TDAH atrapalha o crescimento da criança?
Pode desacelerar o crescimento, por isso ele é medido de rotina. As bulas americanas do Concerta e do Venvanse descrevem, em crianças de 7 a 13 anos com uso diário, cerca de 2 cm a menos de altura e 2,7 kg a menos de peso em 3 anos. No estudo MTA, publicado em 2017, quem usou estimulante de forma consistente ou intermitente ficou 2,55 cm mais baixo na vida adulta do que quem teve uso desprezível. A diretriz NG87 do NICE pede medir altura a cada 6 meses.
Ter TDAH aumenta o risco de obesidade?
Os estudos indicam associação. A metanálise de Cortese e colaboradores, publicada no American Journal of Psychiatry em 2016 com 42 estudos e 728.136 pessoas, encontrou obesidade em 28,2% dos adultos com TDAH, contra 16,4% dos adultos sem o transtorno, e em 10,3% das crianças com TDAH, contra 7,4%. Pessoas medicadas para TDAH não tiveram risco maior de obesidade.
O que fazer se estou perdendo peso com o remédio de TDAH?
Conte ao médico que prescreveu, sem mudar a dose nem parar por conta própria. A diretriz NG87 do NICE lista opções que o profissional pode considerar, como tomar o remédio junto ou depois da refeição, fazer lanches extras cedo pela manhã ou à noite, buscar orientação nutricional e, em alguns casos, pausa planejada ou troca de medicamento. Para adultos, a diretriz recomenda medir o peso a cada 6 meses.
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